Após anos e
anos acompanhando transmissões esportivas via TV, rádio,
internet, jornais e revistas, é impossível não chegar à
seguinte conclusão: a imprensa esportiva brasileira é,
em sua maioria, medíocre.
Medíocre porque é desinformada, superficial e leviana:
não se cerca de dados suficientes para emitir uma
opinião concreta, e mesmo assim a emite;
Medíocre porque é bairrista: a estúpida disputa entre
estados, exarcebada pela imprensa, já nos valeu até
derrotas em Copas do Mundo (vide 1930 e 1934);
Medíocre porque é tendenciosa: não hesita em proteger
determinados clubes e/ou jogadores que, por mais erros
que cometam, sempre serão poupados de qualquer
reprimenda mais dura por parte dos analistas;
Medíocre porque é prepotente e pedante: possui a soma de
todas as falhas acima, mas ainda assim aje como se fosse
a Voz de Deus, onipotente, onisciente, infalível.
Isso sem falar que, em termos de estilo, é horrenda. Os
jornalistas brasileiros (exceção feita, talvez, à
Armando Nogueira - que, ainda assim, peca pelo exagero)
redigem artigos absolutamente sem sal, insípidos,
desprovidos de qualquer qualidade narrativa.
Certo.
Listei todos os defeitos acima somente para analisar a
reação de alguns "especialistas" da imprensa esportiva
(inclusive alguns pretensos Palmeirenses) em relação à
notícia de homologação, pela FIFA, da Sociedade
Esportiva Palmeiras à condição de 1º Campeão Mundial
Interclubes - devido à conquista da Copa Rio 1951.
O artigo escolhido para representar a vergonhosa
estupidez do jornalista esportivo brasileiro foi o
dantesco texto "Fifa inventa o título retroativo", de
Valdomiro Neto (quem?), publicado no jornal 'Lance' em
31 de março de 2007 (página 3).
Como os leitores poderão notar, desinformação,
superficialidade, leviandade, bairrismo, tendencionismo,
prepotência, pedantismo e pobreza estilistíca estão mais
do que presentes na crônica de Valdomiro Neto - e com
certeza não apenas demonstram sua incapacidade
profissional, como uma gritante pobreza intelectual - e
até de caráter. Vamos à análise:
"Fifa (sic) inventa o título retroativo"
Vejamos: Valdomiro já começa errando na primeira palavra
do título, ao redigir "Fifa" ao invés do modo correto, "FIFA"
- afinal, trata-se de uma sigla, e, como tal, deve ser
redigida em letras maiúsculas.
“O argumento que mais ouvi nestes dias de elevação do
Palmeiras a campeão do mundo - comemoração retroativa de
quase seis décadas? - é que a Copa Rio de 51 foi muito
relevante por conta da baixa estima (sic) brasileira
após o Maracanazzo. Juro que pensei mais que Aristóteles
na 'República' para entender o que alhos têm (sic) com
bugalhos? Qual a relação do esfrega-ego no complexo de
vira-latas com a transformação repentina de um torneio
interclubes em Mundial?”
A Copa Rio não foi relevante apenas devido à "baixa
estima (sic: o correto seria 'baixa auto-estima')
brasileira após o Maracanazzo". O torneio, oficializado
já à época pela FIFA (1), foi a primeira iniciativa real
de se organizar um campeonato mundial interclubes. Não
importa se foi criado com a intenção de aplacar a
tristeza brasileira nascida do revés na Copa de 1950; o
fato é que o certame, pelos moldes em que foi realizado,
era tratado como um mundial de clubes pela imprensa
nacional e estrangeira que cobria o evento, pelas
equipes internacionais que dele participavam e
principalmente pela FIFA, que enviou o secretário
Ottorino Barassi para presenciar o campeonato e indicou
diretamente os árbitros e bandeirinhas que dele
participaram.
"Aí levantam outro argumento. A tal emenda piorando o
soneto. Dizem que a festa foi tremenda, que os campeões
foram ovacionados como os maiorais... E daí? Por isso
vira Mundial mais de meio século depois? Por causa do
tamanho da algazarra?"
A grandiosa festa que se seguiu depois, com cerca de 1
milhão (!) de pessoas recepcionando o time em São Paulo
- festa essa denominada de "algazarra" pelo estúpido
cronista - foi apenas e tão somente proporcional à
importância que era atribuída à Copa Rio também pela
população brasileira. "Não virou Mundial mais de meio
século depois": já o era na época.
"Porque a Fifa (sic) precisou do 'auxílio' do Palmeiras,
com um dossiê detalhado, para acordar e rever a história?
Virou a entidade revisionista agora? Precisa que os
outros lhe digam o que foi importante ou não? Não tem
competência para tal?"
Outra imbecilidade: ao invés de parabenizar o Palmeiras
pelo apurado detalhamento histórico de seu dossiê (ricamente
impresso e encadernado, redigido em quatro idiomas,
repleto de fotos, trechos de jornais, etc.), que tão
grandemente impressionou os membros da FIFA, Valdomiro
implica com a atitude revisionista da entidade. Ora, se
a própria Igreja Católica, durante o pontificado do
Santo Padre João Paulo II, reviu vários de seus
posicionamentos em épocas passadas, porque a FIFA não
poderia fazer o mesmo? Que mal há nisso? Isso a faz
incompetente? CLARO QUE NÃO. Ao adotar essa atitude, a
FIFA mostrou-se uma entidade consciente de que, se não
dispõem de todos os dados futebolísticos relevantes
ocorridos ao longo do século XX, ao tomar ciência de
fatos comprovados, não se faz de rogada em admití-los e
oficializá-los.
"Então, por toda essa lógica torta o Uruguai deveria ser
considerado tetracampeão do mundo. Em 1924 e 1928,
quando ainda não existia Copa do Mundo, os
sul-americanos conquistaram duas Olimpíadas e até hoje
são conhecidos como a Celeste Olímpica. Sugiro à
Federação Uruguaia de Futebol que monte um documento com
o pedido."
Outra desinformação de Valdomirinho: meu filho, como a
FIFA, segundo sua sugestão idiota, poderia oficializar o
Uruguai como tetracampeão mundial - se a Copa do Mundo
foi criada justamente com o intuito de ser uma
competição totalmente diferenciada do torneio olímpico,
pois desde o início era um campeonato PROFISSIONAL,
enquanto a Olímpiada era um evento AMADOR? Já leu algum
livro, ou mesmo algum artigo sobre isso? Imagino que não.
"Que me perdoem os palestrinos, pelos quais tenho
profunda admiração, mas esse festival de alegações é
dantesco. Como você organiza uma competição, não a chama
de Mundial e, 56 anos depois, a configura com esse
status? Carece da mínima lógica. Só porque havia
representantes de diversos países? Se tinha tal monta,
por que o Milan, campeão italiano à época, deu de costas?
Contem outra, vai!"
Depos de toda essa ironia barata, você ainda tem a
cara-de-pau de dizer que tem "profunda admiração" pela
comunidade Palmeirense? Não seja cínico. E "dantescos"
são seus argumentos, Valdomirinho. Primeiro, a Copa Rio
1951 não foi chamada de "Mundial" - embora fosse
idealizada e tratada como tal - simplesmente porque,
como a final seria realizada no Rio de Janeiro, a taça
homenageia a cidade (Capital Federal na época). Um
exemplo: se amanhã a Copa do Mundo passar a ser chamada
de "Torneio de Seleções", deixará de ser um Campeonato
Mundial? Evidente que não.
Você diz: "Só porque havia representantes de diversos
países?" Bem, foi justamente o fato de contar com
representantes de diversos países que deu ao certame o
status de Mundial. Até onde sei, ficaria meio difícil
realizar um torneio internacional somente com equipes
brasileiras.
Aliás, devo frisar - porque você propositalmente omite
ou provavelmente não sabe - que participaram somente
campeões nacionais das principais nações futebolísticas
do planeta:
- Juventus (Itália, Bi-Campeã Mundial, Copas de
1934/1938)
- Nacional (Uruguai, Bi-Campeã Mundial, Copas de
1930/1950)
- Estrela Vermelha (Iugoslávia, 3ª Colocada na Copa de
1930)
- Áustria Viena (Áustria, 4ª Colocada na Copa de 1934)
- Olympique Nice (França)
- Sporting (Portugal)
Fora o Vasco da Gama, Campeão Carioca de 1950, e, claro,
o Palmeiras, Campeão paulista e do Torneio Rio-São Paulo
de 1950.
A Juventus foi convidada em lugar do Milan por ser a
campeã italiana da temporada 1949/1950 - e porque a
equipe milanesa não possuía, nem de longe, o brilho que
tem hoje. Enquanto a "Velha Senhora" havia conquistado 6
campeonatos italianos profissionais (incluindo um
espetacular pentacampeonato entre as temporadas 1930/31
e 1934/35) e seria campeã novamente em 1951/52, o então
modesto Milan havia vencido somente o certame de 1950/51
da fase profissional do "calcio". Para abrilhantar ainda
mais a Copa Rio, a atitude mais correta foi, sem dúvida,
ignorar os rubro-negros e trazer o já mundialmente
famoso esquadrão de Turim. Ou seja: o Milan não "deu de
costas" (termo estranho, hein?) - ele NÃO FOI CONVIDADO.
Mas aposto que você nem fazia idéia disso, não?
E quer que eu conte outra? Aí vai uma piada muito boa,
Valdomirinho:
Os mesmos jornalistas de meia pataca do jornaleco
"Lance" e da imprensa em geral que tanto se preocupam em
denegrir a legítima conquista alviverde e BRASILEIRA -
uma homologação da FIFA baseada em uma apurada
investigação e comprovação dos fatos, e em uma
criteriosa análise por parte da entidade-mor do futebol
mundial (aliás, um aviso aos outros clubes: desistam de
tentar homologar seus torneiozinhos. A FIFA não é a
"casa da mãe Joana", e ficou patente que suas decisões
se baseiam somente em fatos comprovados) - são os mesmos
idiotas que estão incensando o intragável Romário pela
eminência de seu "milésimo gol" - sendo que o famigerado
"peixe" está, segundo os especialistas sérios, a cerca
de 95 tentos de seu objetivo (as contas duvidosas do
camisa 11 incluem até gols marcados em PARTIDAS QUE
SIMPLESMENTE NÃO EXISTIRAM). Mas trata-se do Romário, o
queridinho, o protegidinho da mídia esportiva brasileira
- e é oferecida ao diminuto atacante, sem maiores
reprimendas, a oportunidade de trapacear para atingir
uma marca histórica.
Esta é a Imprensa Esportiva Brasileira, da qual
Valdomiro Neto é apenas e tão somente um dos
representantes. Rebaixa os grandes, exalta os medíocres,
promove a desinformação.
Deus nos ajude em meio à tanta cafajestagem.
(1) "A FIFA acompanhou atentamente o torneio mandando o
seu secretário geral Ottorino Barassi, indicando os
árbitros e a final contou com a presença do seu
presidente, o Sr. Jules Rimet, para efetuar a entrega da
Taça ao vencedor." (Fonte: Wikipédia)
P.S.: Caso algum Palmeirense queira manifestar sua
opinião ao jornalista citado neste artigo, basta enviar
um e-mail para valdomiron@lancenet.com.br . Seria bom
ele ter alguma noção do quanto as bobagens que ele
escreveu feriram a verdade e desagradaram aos
Palmeirenses que leram sua coluna.
...........oOo..........
SOBRE O PELÉ...
O Rei Pelé (que às vezes fala cada uma) fez o seguinte
comentário em uma entrevista coletiva, em 2/4:
"Falando sério, eu vi esse torneio que o Palmeiras
venceu. Se for assim, o Santos também ganhou vários
campeonatos octogonais desse tipo na Argentina, no
Chile, no Uruguai. Teríamos, então, uns cinco ou seis
títulos mundiais”
Sou fã do Pelé, mas desta vez ele perdeu uma bela
oportunidade de ficar calado. Caro Rei, por acaso em um
desses torneios que você participou, o capitão do time
vencedor recebeu o troféu das mãos do Presidente da FIFA
(e ainda por cima, do Jules Rimet em pessoa)? O torneio
foi acompanhado por um secretário da entidade, e apitado
por árbitros e bandeirinhas diretamente designados pela
mesma? Era composto somente pelos times principais das
mais importantes equipes campeãs nacionais da América do
Sul e Europa? Ao chegar em casa, o time vencedor foi
recebido por cerca de UM MILHÃO de torcedores? Eu creio
que não. Então, Rei, desculpe, mas se não conhece os
fatos, não comente sobre eles.
E esse recado vale também para os Gambás, Bambis e
Lambaris. Podem tentar validar os torneios vagabundos
dos quais participaram, mas a primeira e única
iniciativa SÉRIA de Campeonato Mundial Interclubes foi a
COPA RIO 1951... E O PALMEIRAS FOI O CAMPEÃO. Chora,
gentalha! |