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:: A COPA RIO E A ESTUPIDEZ DA IMPRENSA BRASILEIRA
Jean Carlos Covezzi - covezzi.brothers@ig.com.br

Após anos e anos acompanhando transmissões esportivas via TV, rádio, internet, jornais e revistas, é impossível não chegar à seguinte conclusão: a imprensa esportiva brasileira é, em sua maioria, medíocre.
Medíocre porque é desinformada, superficial e leviana: não se cerca de dados suficientes para emitir uma opinião concreta, e mesmo assim a emite;

Medíocre porque é bairrista: a estúpida disputa entre estados, exarcebada pela imprensa, já nos valeu até derrotas em Copas do Mundo (vide 1930 e 1934);

Medíocre porque é tendenciosa: não hesita em proteger determinados clubes e/ou jogadores que, por mais erros que cometam, sempre serão poupados de qualquer reprimenda mais dura por parte dos analistas;
Medíocre porque é prepotente e pedante: possui a soma de todas as falhas acima, mas ainda assim aje como se fosse a Voz de Deus, onipotente, onisciente, infalível.

Isso sem falar que, em termos de estilo, é horrenda. Os jornalistas brasileiros (exceção feita, talvez, à Armando Nogueira - que, ainda assim, peca pelo exagero) redigem artigos absolutamente sem sal, insípidos, desprovidos de qualquer qualidade narrativa.
Certo.

Listei todos os defeitos acima somente para analisar a reação de alguns "especialistas" da imprensa esportiva (inclusive alguns pretensos Palmeirenses) em relação à notícia de homologação, pela FIFA, da Sociedade Esportiva Palmeiras à condição de 1º Campeão Mundial Interclubes - devido à conquista da Copa Rio 1951.

O artigo escolhido para representar a vergonhosa estupidez do jornalista esportivo brasileiro foi o dantesco texto "Fifa inventa o título retroativo", de Valdomiro Neto (quem?), publicado no jornal 'Lance' em 31 de março de 2007 (página 3).

Como os leitores poderão notar, desinformação, superficialidade, leviandade, bairrismo, tendencionismo, prepotência, pedantismo e pobreza estilistíca estão mais do que presentes na crônica de Valdomiro Neto - e com certeza não apenas demonstram sua incapacidade profissional, como uma gritante pobreza intelectual - e até de caráter. Vamos à análise:

"Fifa (sic) inventa o título retroativo"
Vejamos: Valdomiro já começa errando na primeira palavra do título, ao redigir "Fifa" ao invés do modo correto, "FIFA" - afinal, trata-se de uma sigla, e, como tal, deve ser redigida em letras maiúsculas.

“O argumento que mais ouvi nestes dias de elevação do Palmeiras a campeão do mundo - comemoração retroativa de quase seis décadas? - é que a Copa Rio de 51 foi muito relevante por conta da baixa estima (sic) brasileira após o Maracanazzo. Juro que pensei mais que Aristóteles na 'República' para entender o que alhos têm (sic) com bugalhos? Qual a relação do esfrega-ego no complexo de vira-latas com a transformação repentina de um torneio interclubes em Mundial?”

A Copa Rio não foi relevante apenas devido à "baixa estima (sic: o correto seria 'baixa auto-estima') brasileira após o Maracanazzo". O torneio, oficializado já à época pela FIFA (1), foi a primeira iniciativa real de se organizar um campeonato mundial interclubes. Não importa se foi criado com a intenção de aplacar a tristeza brasileira nascida do revés na Copa de 1950; o fato é que o certame, pelos moldes em que foi realizado, era tratado como um mundial de clubes pela imprensa nacional e estrangeira que cobria o evento, pelas equipes internacionais que dele participavam e principalmente pela FIFA, que enviou o secretário Ottorino Barassi para presenciar o campeonato e indicou diretamente os árbitros e bandeirinhas que dele participaram.

"Aí levantam outro argumento. A tal emenda piorando o soneto. Dizem que a festa foi tremenda, que os campeões foram ovacionados como os maiorais... E daí? Por isso vira Mundial mais de meio século depois? Por causa do tamanho da algazarra?"

A grandiosa festa que se seguiu depois, com cerca de 1 milhão (!) de pessoas recepcionando o time em São Paulo - festa essa denominada de "algazarra" pelo estúpido cronista - foi apenas e tão somente proporcional à importância que era atribuída à Copa Rio também pela população brasileira. "Não virou Mundial mais de meio século depois": já o era na época.

"Porque a Fifa (sic) precisou do 'auxílio' do Palmeiras, com um dossiê detalhado, para acordar e rever a história? Virou a entidade revisionista agora? Precisa que os outros lhe digam o que foi importante ou não? Não tem competência para tal?"

Outra imbecilidade: ao invés de parabenizar o Palmeiras pelo apurado detalhamento histórico de seu dossiê (ricamente impresso e encadernado, redigido em quatro idiomas, repleto de fotos, trechos de jornais, etc.), que tão grandemente impressionou os membros da FIFA, Valdomiro implica com a atitude revisionista da entidade. Ora, se a própria Igreja Católica, durante o pontificado do Santo Padre João Paulo II, reviu vários de seus posicionamentos em épocas passadas, porque a FIFA não poderia fazer o mesmo? Que mal há nisso? Isso a faz incompetente? CLARO QUE NÃO. Ao adotar essa atitude, a FIFA mostrou-se uma entidade consciente de que, se não dispõem de todos os dados futebolísticos relevantes ocorridos ao longo do século XX, ao tomar ciência de fatos comprovados, não se faz de rogada em admití-los e oficializá-los.

"Então, por toda essa lógica torta o Uruguai deveria ser considerado tetracampeão do mundo. Em 1924 e 1928, quando ainda não existia Copa do Mundo, os sul-americanos conquistaram duas Olimpíadas e até hoje são conhecidos como a Celeste Olímpica. Sugiro à Federação Uruguaia de Futebol que monte um documento com o pedido."
Outra desinformação de Valdomirinho: meu filho, como a FIFA, segundo sua sugestão idiota, poderia oficializar o Uruguai como tetracampeão mundial - se a Copa do Mundo foi criada justamente com o intuito de ser uma competição totalmente diferenciada do torneio olímpico, pois desde o início era um campeonato PROFISSIONAL, enquanto a Olímpiada era um evento AMADOR? Já leu algum livro, ou mesmo algum artigo sobre isso? Imagino que não.

"Que me perdoem os palestrinos, pelos quais tenho profunda admiração, mas esse festival de alegações é dantesco. Como você organiza uma competição, não a chama de Mundial e, 56 anos depois, a configura com esse status? Carece da mínima lógica. Só porque havia representantes de diversos países? Se tinha tal monta, por que o Milan, campeão italiano à época, deu de costas? Contem outra, vai!"

Depos de toda essa ironia barata, você ainda tem a cara-de-pau de dizer que tem "profunda admiração" pela comunidade Palmeirense? Não seja cínico. E "dantescos" são seus argumentos, Valdomirinho. Primeiro, a Copa Rio 1951 não foi chamada de "Mundial" - embora fosse idealizada e tratada como tal - simplesmente porque, como a final seria realizada no Rio de Janeiro, a taça homenageia a cidade (Capital Federal na época). Um exemplo: se amanhã a Copa do Mundo passar a ser chamada de "Torneio de Seleções", deixará de ser um Campeonato Mundial? Evidente que não.

Você diz: "Só porque havia representantes de diversos países?" Bem, foi justamente o fato de contar com representantes de diversos países que deu ao certame o status de Mundial. Até onde sei, ficaria meio difícil realizar um torneio internacional somente com equipes brasileiras.
Aliás, devo frisar - porque você propositalmente omite ou provavelmente não sabe - que participaram somente campeões nacionais das principais nações futebolísticas do planeta:

- Juventus (Itália, Bi-Campeã Mundial, Copas de 1934/1938)
- Nacional (Uruguai, Bi-Campeã Mundial, Copas de 1930/1950)
- Estrela Vermelha (Iugoslávia, 3ª Colocada na Copa de 1930)
- Áustria Viena (Áustria, 4ª Colocada na Copa de 1934)
- Olympique Nice (França)
- Sporting (Portugal)

Fora o Vasco da Gama, Campeão Carioca de 1950, e, claro, o Palmeiras, Campeão paulista e do Torneio Rio-São Paulo de 1950.

A Juventus foi convidada em lugar do Milan por ser a campeã italiana da temporada 1949/1950 - e porque a equipe milanesa não possuía, nem de longe, o brilho que tem hoje. Enquanto a "Velha Senhora" havia conquistado 6 campeonatos italianos profissionais (incluindo um espetacular pentacampeonato entre as temporadas 1930/31 e 1934/35) e seria campeã novamente em 1951/52, o então modesto Milan havia vencido somente o certame de 1950/51 da fase profissional do "calcio". Para abrilhantar ainda mais a Copa Rio, a atitude mais correta foi, sem dúvida, ignorar os rubro-negros e trazer o já mundialmente famoso esquadrão de Turim. Ou seja: o Milan não "deu de costas" (termo estranho, hein?) - ele NÃO FOI CONVIDADO. Mas aposto que você nem fazia idéia disso, não?

E quer que eu conte outra? Aí vai uma piada muito boa, Valdomirinho:
Os mesmos jornalistas de meia pataca do jornaleco "Lance" e da imprensa em geral que tanto se preocupam em denegrir a legítima conquista alviverde e BRASILEIRA - uma homologação da FIFA baseada em uma apurada investigação e comprovação dos fatos, e em uma criteriosa análise por parte da entidade-mor do futebol mundial (aliás, um aviso aos outros clubes: desistam de tentar homologar seus torneiozinhos. A FIFA não é a "casa da mãe Joana", e ficou patente que suas decisões se baseiam somente em fatos comprovados) - são os mesmos idiotas que estão incensando o intragável Romário pela eminência de seu "milésimo gol" - sendo que o famigerado "peixe" está, segundo os especialistas sérios, a cerca de 95 tentos de seu objetivo (as contas duvidosas do camisa 11 incluem até gols marcados em PARTIDAS QUE SIMPLESMENTE NÃO EXISTIRAM). Mas trata-se do Romário, o queridinho, o protegidinho da mídia esportiva brasileira - e é oferecida ao diminuto atacante, sem maiores reprimendas, a oportunidade de trapacear para atingir uma marca histórica.

Esta é a Imprensa Esportiva Brasileira, da qual Valdomiro Neto é apenas e tão somente um dos representantes. Rebaixa os grandes, exalta os medíocres, promove a desinformação.
Deus nos ajude em meio à tanta cafajestagem.

(1) "A FIFA acompanhou atentamente o torneio mandando o seu secretário geral Ottorino Barassi, indicando os árbitros e a final contou com a presença do seu presidente, o Sr. Jules Rimet, para efetuar a entrega da Taça ao vencedor." (Fonte: Wikipédia)
P.S.: Caso algum Palmeirense queira manifestar sua opinião ao jornalista citado neste artigo, basta enviar um e-mail para valdomiron@lancenet.com.br . Seria bom ele ter alguma noção do quanto as bobagens que ele escreveu feriram a verdade e desagradaram aos Palmeirenses que leram sua coluna.

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SOBRE O PELÉ...
O Rei Pelé (que às vezes fala cada uma) fez o seguinte comentário em uma entrevista coletiva, em 2/4:

"Falando sério, eu vi esse torneio que o Palmeiras venceu. Se for assim, o Santos também ganhou vários campeonatos octogonais desse tipo na Argentina, no Chile, no Uruguai. Teríamos, então, uns cinco ou seis títulos mundiais”

Sou fã do Pelé, mas desta vez ele perdeu uma bela oportunidade de ficar calado. Caro Rei, por acaso em um desses torneios que você participou, o capitão do time vencedor recebeu o troféu das mãos do Presidente da FIFA (e ainda por cima, do Jules Rimet em pessoa)? O torneio foi acompanhado por um secretário da entidade, e apitado por árbitros e bandeirinhas diretamente designados pela mesma? Era composto somente pelos times principais das mais importantes equipes campeãs nacionais da América do Sul e Europa? Ao chegar em casa, o time vencedor foi recebido por cerca de UM MILHÃO de torcedores? Eu creio que não. Então, Rei, desculpe, mas se não conhece os fatos, não comente sobre eles.

E esse recado vale também para os Gambás, Bambis e Lambaris. Podem tentar validar os torneios vagabundos dos quais participaram, mas a primeira e única iniciativa SÉRIA de Campeonato Mundial Interclubes foi a COPA RIO 1951... E O PALMEIRAS FOI O CAMPEÃO. Chora, gentalha!